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Grande
multidão já se encontrava na Praça dos Três Poderes quando Juscelino
chegou, às 23h35min, para a Missa Solene de Ação de Graças.
O altar fora erguido diante da entrada nobre do Supremo Tribunal
Federal, aproveitando que o piso térreo desse Palácio, todo em mármore
branco, projeta-se por vários metros além das paredes externas (em
vidro) do edifício e situa-se em nível mais elevado que o da praça;
e aproveitando também a proteção da imponente "marquise" formada
pela cobertura de concreto-armado do prédio, que leves colunas sustentam.
À esquerda do altar enfileiravam-se genuflexórios ocupados pelos
três cardeais brasileiros, D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota,
de São Paulo, D. Jayme de Barros Camara, do Rio e D. Álvaro Augusto
da Silva, da Bahia e por outras autoridades eclesiásticas, entre
as quais o Núncio Apostólico no Brasil D. Armando Lombardi.
À direita, sentado num trono de rico dossel, o Cardeal Cerejeira
aguardava.
Outros genuflexórios haviam sido colocados à frente do altar, na
própria praça e o Presidente com sua família, o Vice-Presidente,
Ministros, Embaixadores e convidados especiais, aí se postaram.
Tão logo Juscelino tomou seu lugar, teve início a cerimônia com
o Legado Pontifício procedendo à colocação, no altar, da cruz de
Cristo, crucifixo de ferro usado por Frei Henrique de Coimbra na
histórica primeira missa celebrada no ilhéu da Coroa Vermelha, em
Porto Seguro, a 26 de abril de 1500 e que o Cardeal trouxera, da
Sé de Braga, de novo ao Brasil, para a grande ocasião.
Exatamente à meia-noite o Cardeal Legado iniciou a celebração da
Santa Missa. D. Helder Câmara, Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro,
ia explicando ao povo cada ato da cerimônia litúrgica.
O edifício do Supremo Tribunal era, na noite, um ponto de luz radiante
e sobre a multidão cruzavam-se os fachos luminosos de dois poderosos
holofotes do Exército. Todo o restante da cidade encontrava-se na
mais completa escuridão.
Sob a regência do Maestro Isaac Karabtchewsky as vozes do Coral
Renascentista, de Belo Horizonte, fizeram-se ouvir no "Kyrie" da
bela "Missa da Coroação", de Mozart e depois no "Credo", acompanhadas
pela Orquestra de Câmera de São Paulo.
O povo se recolheu em prece sob o encanto do momento que vivia.
Mas à elevação da Hóstia Santa, súbito romperam o silêncio da noite
os acordes vibrantes, marciais, festivos, do Hino Nacional Brasileiro,
executado pela Banda dos Fuzileiros Navais, colocada perto do altar,
e todos sentiram um arrepio na pele, um nó na garganta, uma doce
vontade de chorar.
No mesmo instante as luzes da cidade — das ruas, das avenidas, dos
Palácios, dos Ministérios, das residências, dos acampamentos — acenderam-se
sob um só comando e a nova capital surgiu das trevas nadando em
luz, feérica, linda, definitiva, eterna!
O Presidente, que lutava por não sucumbir, curvou a fronte, escondeu
nas mãos o rosto — e também chorou.
Eram 20 minutos passados da meia-noite. Começava a nascer o 21 de
abril de 1960. Depois do "Glória", de Mozart, e da bênção final
da missa, o Legado Pontifício proferiu bela oração, invocando "sobre
a nova Capital e sobre o povo brasileiro o Nome bendito de Deus,
para que sua Providência os guardasse", dizendo que o fazia "como
Legado do próprio Vigário d'Aquele que tem todo o poder no céu e
na terra".
Ao terminar sua oração, voltou ao trono. E o silêncio desceu sobre
todos no espaço largo da praça. Aguardava-se a palavra de Sua Santidade,
o Papa João XXIII, diretamente do Vaticano.
Logo se ouviu, aos exatos 45 minutos daquela madrugada, amplificada
nos numerosos alto-falantes, a voz do Sumo Pontífice a dizer:
"É com o maior júbilo para o nosso coração de pai comum, que aproveitamos
a oportunidade da inauguração da Nova Capital do Brasil para dirigirmos
ao seu laborioso e generoso povo nossa palavra de bênção e augúrio".
João XXIII falava em português e percebia-se seu grande esforço
por pronunciar bem as palavras.
Curiosamente foi mais fácil entende-lo do que havia sido entender
o próprio Cardeal Cerejeira, no seu acento lisboeta.
Não foi longa a alocução do Papa, que terminou pedindo a Deus que
continuasse a derramar em abundância suas graças para que o Brasil
se tornasse cada vez mais forte, grande e livre à luz do Evangelho.
E concluiu concedendo, "de todo o coração", sua especial Bênção
Apostólica "ao querido povo brasileiro e particularmente ao Presidente
da República e a todos os técnicos e operários que haviam contribuído,
com suas canceiras, para a realização da grandiosa obra".
O vento frio da madrugada mal dispersara o eco das últimas palavras
do Santo Padre e permanecia, ainda, a multidão, muda e imóvel, quando
o repicar alegre de um sino se fez ouvir dentro da noite. Era o
velho sino do Pe. Faria, da antiga Vila Rica del Rey, que dobrara
em 1793 pela morte do Alferes Joaquim José e que, trazido de Ouro
Preto e erguido na Praça, simbolicamente juntava a voz de Tiradentes
àquelas que aplaudiam a nova capital brasileira no coração da pátria,
sonho que ele, o Alferes, por primeiro sonhara, um dia.
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