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Começou
com atraso a parada militar, no Eixo Rodoviário Sul. Juscelino chegara
meia hora depois do horário previsto.
Na verdade, ao Presidente era quase impossível observar rigorosamente
os horários.
No momento em que saía do Alvorada para dirigir-se ao Eixo Rodoviário,
cruzou, no portão, com dois ônibus que conduziam uma caravana de
gaúchos chefiada pelo governador do estado Leonel Brizola.
A Guarda barrara os ônibus, tinha ordens terminantes, só podiam
entrar as pessoas hospedadas no palácio. Juscelino mandou parar
seu carro, desceu e, no meio do povo, encontrou-se com o governador,
entre vivas, aclamações, abraços e pedidos de autógrafos.
Brizola explicou ao Presidente que pensara em mostrar o palácio
aos seus companheiros de viagem, mas parecia difícil naquele momento.
Juscelino foi logo dizendo alto, com um sorriso:
— "A casa é dos senhores. Sinto não poder ficar para recebe-los.
Tenho que presidir o desfile que começa agora". E voltando-se para
o governador:
— "Por que não veio almoçar comigo?"
Brizola esclareceu que tinha assumido compromisso de almoçar com
os companheiros. E contou como haviam improvisado um alegre pic-nic
com as caixinhas de lanches da empresa aérea que os trouxera de
Porto Alegre, servidas em plena Praça dos Três Poderes.
— "Venha, então, à noite". Despediu-se o Presidente do Governador,
enquanto em volta muitas mãos se estendiam buscando a sua.
A muito custo conseguiu chegar ao carro que partiu vagarosamente
mas, poucos metros adiante, parou de novo. JK percebera o arcebispo
D. Vicente Scherer entre a multidão e desceu para cumprimentar e
trocar duas palavras com o prelado riograndense.
Era mesmo difícil naquele dia, cumprir os horários com rigor.
O General Luiz Guedes abriu o desfile, de pé em sua viatura militar
e postou-se em frente e um pouco ao lado do palanque oficial. A
Banda dos Fuzileiros Navais, que vinha logo após, realizou evoluções
diante do palanque e colocou-se em posição para marcar o ritmo das
tropas.
Aviões da "esquadrilha da fumaça", em vôos rasantes, assustavam
a multidão. Desfilaram cadetes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica,
um destacamento do CPOR, a Companhia de Guardas de Brasília, um
contingente da Base Aérea e o Batalhão de Guardas Presidencial.
Encerrando o desfile militar, que reuniu 2.000 homens, vinham dois
destacamentos: um que havia partido do Rio de Janeiro, o outro de
Salvador, percorrendo a pé mais de mil quilômetros. Entregaram ao
Presidente, naquela hora, mensagens de exaltação à nova Capital.
O destacamento do Rio de Janeiro, composto de cem fuzileiros navais
e vinte marinheiros, encontrara perto de Belo Horizonte, em sua
longa caminhada, um jovem paraplégico que numa cadeira de rodas,
tendo saído também do Rio, buscava chegar a Brasília pelo próprio
esforço, numa homenagem ao Presidente Kubitschek. Logo o destacamento
"adotou" o paraplégico, e agora, ali na ampla avenida da nova Capital,
ao desfilar em seu vistoso uniforme de camuflagem, trazia como "mascote"
o jovem, radiante de alegria em sua cadeira de rodas. O rapaz aproximou-se
do palanque oficial e Juscelino, curvando-se, lhe falou: — "Jovem!
Agradeço comovido sua presença nesta festa e admiro sua bravura".
O paraplégico respondeu: — "Presidente! O que eu fiz, em comparação
com tudo o que Vossa Excelência tem feito, representa uma gota no
oceano!"
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