Às 17 horas o Presidente deixou o Catetinho e dirigiu-se à Praça dos Três Poderes, onde chegou às 17h30min, com meia hora, portanto, de atraso em relação ao horário previsto. Uma multidão concentrava-se na praça, à sua espera. Lá estavam os candangos da construção e milhares de brasileiros que haviam acorrido do norte e do sul para testemunhar os grandes eventos da inauguração.

Centenas de jornalistas de todas as partes do mundo. Precedido de batedores, o carro do Presidente, seguido de extensa fila de veículos de fabricação nacional, os J.K., que conduziam altas personalidades da República, deteve-se diante do Palácio. O povo, tomado de indizível entusiasmo, cercou o Presidente e o acompanhou até à rampa de acesso ao Salão Nobre.

Juscelino, apressado, dirigiu-se logo, sozinho, ao parlatório que domina a praça e aí, de braços abertos, recebeu grande ovação da massa que se postava embaixo. Da. Sarah e as filhas, o Vice-Presidente João Goulart, Israel Pinheiro e sua mulher Da. Coracy, logo se acercaram do Presidente.

Naquele momento Israel devia entregar-lhe, solenemente, a Chave da Cidade. Era esta uma bela peça de ourivesaria, medindo aproximadamente 20 centímetros de comprimento, lavrada em ouro puro, e sua entrega tinha o sentido não apenas de "missão cumprida", coroamento do sonho e do esforço de tantos em proveito e benefício de todos, a despeito da incompreensão e resistência de alguns (velhos de Restelo que sempre existiram e existirão em todos os tempos), mas simbolizava, muito mais, a certeza de que naquele momento se insculpia profunda marca divisória entre duas eras, abrindo-se para a pátria um tempo novo de transformações portentosas e acima de tudo, naquele momento, com o gesto singelo da entrega da Chave, proclamava-se que o povo brasileiro tomara consciência de que tudo poderia pretender e ousar.

Geraldo Queiroz disse que falava em nome dos candangos, expressando a alegria de todos por assistir aquele ato; assegurou que desde os tempos em que Juscelino governara Minas Gerais vinha acompanhando suas realizações, das quais citou algumas; e isso lhe dera a certeza de que Brasília, depois que as obras haviam começado, não ficaria como um sonho inacabado mas se transformaria em realidade no prazo marcado. E por acreditar em Brasília e em Juscelino largara tudo, como muitos outros, e viera ajudar a edificar o sonho.

Depois que o candango falou, o Presidente iniciou o seu discurso mas teve de interrompe-lo e começar de novo, em razão das evoluções da "Esquadrilha da Fumaça" que perturbavam a atenção da massa humana, assustando, inclusive, a muitos, com seus vôos rasantes.

O atraso inicial e mais a interferência, não programada, do candango, provocaram um pequeno problema que poderia ter se tornado sério: já escurecia quando o Presidente começou a ler o seu discurso e como não havia luz elétrica no parlatório a leitura tornou-se quase impossível.

Alguém lembrou-se de sair à procura de uma lanterna, de um "flash light", mas o Presidente, demonstrando excelente visão, prosseguiu normalmente na leitura. De repente parou: não encontrava a página seguinte. Supôs que pudesse estar fora de ordem, procurou de novo, não encontrou. Voltou-se então para Da. Sarah e comentou: "Perdi duas folhas do discurso". E em voz alta repetiu para o povo que perdera duas folhas do discurso. A essa altura, não sei como, alguém surgiu segurando uma lâmpada acesa na ponta de um longo fio. Mas o Presidente já guardara no bolso as folhas datilografadas e de improviso concluiu sua fala.

Após a oração presidencial ofereceu Israel a Juscelino um "Livro de Ouro" com os nomes de todos aqueles que haviam ajudado a construir Brasília. E o Presidente o distinguiu com a outorga da Grã Cruz da Ordem Nacional do Mérito.